domingo, 3 de outubro de 2010

Por um voto consciente



Tive o prazer de conhecer, recentemente, duas pessoas que escolheram votar no Serra, e o fazem de maneira consciente. Eles têm seus motivos, dos quais eu discordo frontalmente, para fazerem a opção conservadora. E tais opções devem-se à maneira de governar do tucano, e somente a isso.
Porém, é muito preocupante o modo como as pessoas, especialmente as mais instruídas, estão levando seu voto ultimamente. Achei que esta eleição serviria para o prevalecimento de uma postura mais crítica em relação à política, cobranças maiores, mas parece que a mediocridade que assola os candidatos tomou conta também dos eleitores.
Para começar, estou absolutamente revoltado com as malditas correntes que trazem Dilma Roussef como terrorista. Tudo bem, existem centenas de motivos para não votar na candidata, e mesmo tendo a escolhido, entendo perfeitamente aquele que não o faz, porque ela realmente não é candidata dos sonhos. Mas, pó! As pessoas estão esquecendo de um preceito básico em relação a tais fatos: o terrorismo de Dilma era contra nada mais do que a ditadura! A mesma ditadura que matou, torturou e roubou milhares de brasileiros, que levou o país a um gigantesco colapso, responsável pela catatrófica inflação que dominou o país até o início da década de 1980.
Vamos imaginar o seguinte: os nazistas foram detidos na segunda guerra mundial, através de uma invasão feroz dos americanos, e uma ainda mais feroz dos russos, que simplesmente devastaram todos os territórios dominados pelos nazistas, matando todos aqueles que declaravam qualquer tipo de simpatia ao regime. Imagino que muita gente que entrou de gaiato morreu nesta invasão, mas vale lembrar que o nazismo é responsável por massacres indescritíveis da humanidade. O nazismo estava errado, e o mundo comprovou isso. Logicamente, o mundo iria reagir. Então, não entendo o que as pessoas esperavam de quem era torturado pela ditadura: queriam um diálogo intelectual tentando mostrar aos militares que eles eram os errados? Queriam propor um referendo para tirar o regime opressor? Ou esperavam que um simples “por favor” servisse para mudar o regime?
Daí, a maior parte das vezes, quando você responde, a pessoa diz que “recebeu e simplesmente estava repassando”. O que eu fico pensando é se ela receber um e-mail dizendo-se como prostituta que aceita passe, se ela “simplesmente vai repassar”.
Daí vem a crença irrestrita na mídia. Na boa, tem que ser muito, mas muito inocente mesmo para achar que os nossos veículos de comunicação cumprem o papel de informar. Eles informam o que querem, e servem a determinados interesses. Alguns devem favores, pelo fato de terem suas assinaturas sustentadas por um determinado governo, outros preferem uma revolução de esquerda. Depende muito de cada um, mas ainda não conheci um único ser humano que é isento. E a maior prova disso foi a palestre que José Dirceu deu sobre liberdade de imprensa. A mídia noticiou o fato como se o cara tivesse condenado a liberdade e pregado novamente a censura. Como não gosto desse cidadão, acreditei nisso, mas depois descobri que até mesmo eu estou indo demais pela mídia, quando vi o vídeo da referida palestra. Em nenhum momento ele fez tal crítica. E o vídeo está no Youtube, para quem quiser ver.
Também já encheu um pouco o saco esta babaquice acéfala de que o presidente Lula é analfabeto, ignorante e tudo mais. Nós ainda temos alguns poucos teimosos que insistem nessa idéia, e eu não sei exatamente se isso é pura ignorância, se é preconceito ou que raio que vem a ser. Nosso presidente é reconhecido mundialmente como um dos líderes mais influentes do milênio, com uma capacidade de relacionamento internacional poucas vezes vista, sendo capaz de manter diálogos e relações comerciais com países diametralmente opostos, como o caso de Israel e Irã, sem criar atritos muito grandes com qualquer um dos lados. É capaz de ser um dos maiores parceiros comerciais dos EUA, mas ter um ótimo relacionamento com a Venezuela e com Cuba. Não acho que um ignorante analfabeto seja capaz disso. Podemos até não gostar do cara, não concordar com seu governo, mas acho que alguns argumentos inteligentes não fariam mal a ninguém.

Eu poderia citar vários outros argumentos e boatos que correm a solta pela Internet, onde as pessoas criam as mais fantásticas histórias e teorias, de ambos os lados, para convencerem as pessoas a votar neste ou naquele candidato. Mas, sinceramente, acho que é muito melhor investir um pouco em aspectos mais inteligentes da eleição, o que parece que os candidatos fizeram muito pouco, por sinal.
Está na hora das pessoas começarem a tomar suas decisões em virtude do que representa cada uma das coligações para o país. E veja, esqueça essa história de que você não vai votar no partido, isso é conversa! Quando você vota numa Dilma por exemplo, está automaticamente colocando nos ministérios e em todo o governo gente do PT e do PMDB. Se você votar no Serra, quem irá estar lá é a cúpula tucana e democrata. Não pense que será diferente.
Então, basta pensar na maneira como os partidos levaram seus governos ao longo dos anos, ou em como propõe levar, no caso do PV e do PSOL, não esquecendo também das alianças que tais partidos costuraram ao longo dos anos. Quais as diferenças apresentadas, e o que elas trouxeram de bom e ruim para o país.
E também já está na hora de parar com essa besteira de que o Lula continuou tudo que o FHC deixou. Um pouco de atenção permite ver que os governos tiveram bastante diferenças: a maneira como lideram e se relacionaram com o FMI; o modo como tratam a importância do Estado na economia ou a participação da área privada através das privatizações; a importância e o investimento que fazem no serviço público, através de real melhoria das estruturas e da valorização dos profissionais; o modo como tratam saúde, educação, segurança, etc. As diferenças são absolutamente nítidas, tanto que fazem com que alguns eleitores de uma das idéias simplesmente abomine a outra.
Só pra dar um exemplo, o país viveu uma grave crise econômica por um curto período, em 2001, onde o mundo começava a ir mal das pernas. Em 2008, o mundo foi assolado por uma das maiores crises das história desde 1929, crise esta que tem seus reflexos até hoje. No primeiro período, o Brasil era neoliberal, o Estado se afastava cada vez mais da vida econômica e o que predominava era o “corte de gastos públicos” (que às vezes parecia mais corte de investimentos públicos). No outro momento, o Brasil adotou uma postura muito mais estatizante, deixando de lado as privatizações e marcando presença na economia. Qual das duas posturas funcionou melhor?

Podemos também pensar no voto nulo. Uma coisa que eu mesmo pensei em fazer por muito tempo. Pode ser que não se tenha afinidade com qualquer das propostas, ou que não se consiga acreditar que nenhum deles vai conseguir cumprir suas promessas. Tudo isso é válido, ainda mais quando se pensa que todos ali já estiveram ligados ou acusados de corrupção, apesar de a mídia metralhar a idéia de envolvimento de somente uma parte atualmente. Mas deve ser consciente, e não simplesmente abrir mão da sua escolha porque “são todos farinha do mesmo saco”.

Por isso, faltando poucos dias da eleição, acho que está na hora de começarmos a conhecer o que cada grupo político propõe para o país. O que tais idéias irão trazer de bom e de ruim, o que as experiências trouxeram de bom e de ruim (sim, eu admito, o governo PSDB teve seus aspectos positivos, com qualquer ser humano tem). Está na hora de buscar a informação, conhecer a realidade em que vivemos, saber como estão sendo empregados nossos impostos, como nos é devolvido o dinheiro que investimos, como estamos sendo educados, como estamos sendo protegidos, como está sendo tratada nossa saúde, etc. E, pelo amor de tudo o que considerem importante: parem de vincular porcarias na Internet sem o devido conhecimento do fato! Terrorismo político só trará problemas para todo o país!

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