terça-feira, 5 de abril de 2016

1964 piorado



E apesar de termos a nossa disposição formas infindáveis de informação e da busca de conhecimento, estamos retorno a 1964. Sim, muita coisa está ocorrendo da mesmíssima forma, apesar de termos coisas diferentes, que tornam o atual momento ainda pior do que no século passado.
Em 1964 a ordem democrática foi rompida abruptamente, por um golpe, travestido de revolução, em virtude de acusações subjetivas contra o presidente, o que incluía corrupção, falta de apoio popular, incapacidade de guiar o país. O “processo” em curso atualmente apresenta as mesmas características. Quem acusa tenta transformá-lo em um procedimento dentro da legalidade sob acusações sem sentido.
Senão, vejamos: a nossa presidente está sofrendo este processo por pedaladas fiscais. O ato foi “cometido” também nos governos anteriores, de FHC e Lula, que tiveram suas contas aprovadas pelo mesmo Congresso que agora tenta imputar a culpa na atual presidente. Ou seja, criaram a jurisprudência que a favorece.
Fora isso, as suas contas nem sequer foram apreciadas pelo Congresso, o que quer dizer que o objeto da acusação nem existe. Fora que até agora ninguém conseguiu sequer demonstrar onde as tais pedaladas entram em algum crime, uma vez que foram recursos “desviados” em proveito de programas sociais, ou seja, na teoria, em benefício do país.
Outra justificativa, esdrúxula, é que a presidente perdeu apoio, sendo que o povo não a quer mais no poder. Fato é que seu governo é um desastre, dando demonstrações de incompetência e de incapacidade políticas fora do comum. Mas estes argumentos não são válidos para um processo de derrubada. A presidente está nesse cargo em virtude de vitória num processo eleitoral, que até agora mostrou-se dentro das leis brasileiras. Ela está ali porque a maioria do povo assim o quis. Infelizmente  a democracia indica que algumas pessoas são contrariadas. Não há nada de ilegal nisso.
Porém, deve-se falar sobre as diferenças com os acontecimentos de 1964, e neste ponto que os eventos que estão acontecendo estão nos levando para um abismo cujo fundo é difícil de enxergar.
Primeiramente, não temos agora apoio dos militares. Agora quem está tentando mudar as regras do jogo no meio da partida são os próprios políticos, ávidos pelo poder, muitos que perderam as eleições.
Mas o pior de tudo é o cenário que se constrói em âmbito internacional. Em 64 o mundo estava voltado à ditadura, com apoio irrestrito dos EUA, no caso dos países capitalistas, e da URSS, nos comunistas. Naquela época não havia nenhum constrangimento nisso. Atualmente, o processo democrático é exigido em qualquer relação internacional estabelecida.
Nesse sentido posicionaram-se contra o impeachment, na forma que está sendo imposto, a ONU, a OEA, e os países com as quais o país tem maior relação comercial, especialmente na América do Sul. Por este mesmo fato o Paraguai foi expulso do Mercosul, tendo sua condição econômica piorada em muitos níveis. E já existe a ameaça da suspensão do Brasil,  o que provavelmente irá ocorrer.
Fora que diante da fraqueza do país no cenário internacional, as instituições citadas irão impor sanções. Bem como a própria credibilidade do país, que não respeita suas próprias leis, sofrerá um significativo abalo.

Desta forma, não há uma situação lógica que possibilite justificar essa insanidade que está ocorrendo. Este impeachment, da forma que está sendo desenhado, é golpe, pura e simplesmente, da mesma forma que foi em 1964. E a defesa feita pelas pessoas, as poucas que o fazem com alguma tentativa frustrada de demonstrar inteligência, só demonstram um ódio irracional ao PT e uma incapacidade gritante em analisar o cenário completo do que ocorre no presente, e do que está para acontecer no futuro.
A afirmação, corretíssima, de que a presidente faz um péssimo mandato, e de que a população na aprova seu mandato, não pode em hipótese alguma ser utilizada para quebrar um processo democrático correto, nem uma tentativa de justificar uma absurda infração da lei, sob o risco de retornar a um período desastroso, com consequências ainda piores.

sábado, 26 de março de 2016

Não era só um gato



Meados de 2004. Eu, um jovem magrelo e cabeludo, chegando perto do fim da faculdade de Artes Plásticas, saía desesperado no fim da aula, sem me despedir direito de ninguém, correndo pra casa, no Jardim Aeroporto. Naquele dia meu tio iria levar meu novo bichinho de estimação, um gato persa, à época com seis meses de idade.
Subi correndo a escada, e meu pai estava sentado no sofá, sozinho. Não vi o gato. Perguntei sobro paradeiro, e recebi como resposta que o bichano estava fazendo reconhecimento de seu novo território.
Fui pra cozinha, super ansioso, e ali veio aquele lindo bichinho peludo, olhando pra mim de forma carinha, imediatamente se esfregando nas minhas mãos, com o rabinho empinado, já ronronando.
Eu não costumo me lembrar como conheci as pessoas. Não lembro como conheci minha esposa. Então provavelmente não lembrarei como te conheci. Mas eu lembro cada detalhe daquele dia, exceto que dia exato era. Lembro exatamente do primeiro olha que ele lançou pra mim, e lembro exatamente do sorriso que eu dei em retribuição,
Provavelmente eu já sabia que aquele não era um dia comum na minha vida. Aquele foi o dia em que o Gordo apareceu. Um dia em que eu era um merdinha como muitos outros, em busca de um lugar ao sol, com tendências depressivas, num relacionamento destrutivo com uma garota chamada Joyce, com muitos problemas de família.
De lá pra cá, muitas coisas ocorreram. Caí numa forte depressão, onde não queria prosseguir minha vida. Saí de casa, morei de favor na casa de um amigo. Voltei a morar com minha mãe. Fui morar com outro amigo. Fui morar sozinho. Casei. Fomos morar num apartamento. Depois viemos pra casa. E sempre o Gordo esteve ao meu lado.
Aliás, o dia que ele conheceu a Vanessa também foi incrível. Ele nunca gostou muito de outras pessoas, que não fossem eu. Quando a Vanessa me abraçou e me beijou, na frente dele, eu pude ver que ele sentiu raiva. Naquele momento, nós dois ficamos com medo que ele a atacasse. Mas ele era dócil. Não fez isso. Porém, de lá em diante, sempre que nos abraçávamos, ficava passando no meio, miando, chamando a atenção. Era um poço de ciúmes.
E não é que ela vive dizendo que quando eu não estava em casa ele era híper carinhoso com ela. Porque era só eu chegar, que ele mal deixava ela chegar perto dele. Virava uma espécie de sombra.
E ele é também a prova viva que gatos gostam da casa e não do dono. Desde que ele nasceu, moramos no Jardim Aeroporto, no Tucuruvi, no Jardim São Paulo, Vila Gustavo, Guarulhos e Vila Gustavo novamente. Ele teve seis casas diferentes. E sempre continuou sendo o mesmo bichinho amoroso e companheiro de sempre.
Meu pai o definiu como eu bichinho especial. Ele era um gato especial. Viveu comigo cada momento, intenso ou não, que tive. Viveu meu relacionamento amoroso, tomando atenção sempre que podia, mas sempre respeitando e nos deixando em paz, quando começávamos uma relação sexual. Ele sabia que tipo de contato eu gostava, sabia quando poderia vir pedir carinho, ou quando eu queria ficar sozinho.
Em doze anos, jamais ficou doente. Sempre forte. Nunca tentou afiar as unhas no sofá, mas não tinha chinelo que ficasse inteiro.
E no último dia 20 de março, esta história chegou ao fim. Uma parte de mim faleceu. Depois de uma rápida e devastadora doença, enfim, seu coração parou, enquanto o meu estava destruído.
Nos últimos dias entrei numa crise fortíssima diante do meu problema com ansiedade. Tive medo de entrar em mais uma crise de depressão, depois de doze anos. Depois de um bichano que me mostrou como a vida poderia ser feliz.
Exagero? Tudo isso por causa de um gato? Não. Se eu tivesse realmente ficado doente, não seria exagero. Ele não era, nunca foi, nem nunca será só um gato. Ele era aquilo que de melhor eu pude demonstrar ao mundo ao longo desses doze anos incríveis. Ele era minha representação maior de amor aos animais, às pessoas. Minha crença que no fundo todos são bons. Ele era a bola de pelos capaz de colocar um sorriso no meu rosto.
E eu nunca mais vou esquecer, daquele miado roco, baixinho, de olhos fechados, e linguinha de fora, pedindo carinho e atenção, afofando as próprias patas, todas as noites, antes de dormir.
Eu nunca mais vou esquecer...

domingo, 16 de agosto de 2015

A revolta dos ruminantes

No filme “Nação Fast Food”, de 2006, Avril Lavigne e seu grupo de ambientalistas invadem uma fazenda que criava gado para abate, no intuito de vendas para uma empresa de fast food, durante a noite, abrindo então as porteiras, uma vez que sequer vigilância havia na fazenda, dando a oportunidade de que todas as vacas ali presas pudessem escapar. Para surpresa do grupo, as vacas nada fazem, mesmo as que olham para a porteira aberta. Nenhuma delas tenta sair, tenta lutar pela liberdade ou pela própria vida.
Esta cena ficou na minha mente desde que assisti ao filme, no ano de seu lançamento. E este ano, com as manifestações pedindo o impeachment da presidente Dilma, a primeira coisa que vem na minha cabeça é a cena do gado preferindo a morte cruel à liberdade, quando vejo essas pessoas agindo da forma que vêm agindo. Em virtude especialmente desta cena resolvi carinhosamente batizar estas manifestações de “A revolta dos ruminantes”.
Não é de hoje que nossa mídia apoia a direita, especialmente a mais radical e que busca cortar liberdades. Não é de hoje que tudo aquilo que visa manter as imensas desigualdades sociais no país tem sido propagado como se fosse vítimas de injustiças. Não é de hoje que nosso sistema educacional é medonho, fazendo com que as pessoas tenham cada dia menos capacidade de pensamento e de entendimento de sua realidade.
Mas, mesmo assim, ainda fico surpreso com as proporções que a situação tomou, uma vez que é inegável a melhora extrema na qualidade de vida desde que o PT assumiu o poder, desde 2002, mesmo que ainda esteja muito longe de uma coisa que possa ser considerada boa. Isso tudo graças a notícias de corrupção, que sempre aconteceram no Brasil, associada ao grande número de notícias bombásticas que têm sido espalhadas em redes sociais, a maioria falsas, como a associação com grupos comunistas, narcotráfico, que o filho do Lula tem ligação com a Friboi, além de todo tipo de bobagem que possa ser pensado. Coisas que as pessoas não só espalham como acreditam, sem qualquer verificação sobre a realidade dos fatos.
Não gostar do PT pra mim é algo normal, da mesma forma que não gostar de outros partidos. Afinal, não me lembro de lideranças que passaram pelo governo sem grandes escândalos de corrupção. No entanto, apesar de muitos desses grupos terem ficado impunes, como ocorreu com os militares ou mesmo o grupo ligado a Fernando Henrique, nunca houve uma grande mobilização para que essas pessoas fossem barradas. Muito pelo contrário: nesta última eleição para presidente Aécio Neves, um dos políticos com maior número de acusações em suas costas, foi considerado como único salvador a ponto de tirar o PT do poder e tirar o país do buraco. A ponto de agora as pessoas usarem camisetas afirmando não terem culpa da situação, pois votaram no Aécio.
Este fato, por si só já basta para demonstrar o quão imbecis estão as pessoas em nosso país. Mas como temos um histórico lamentável de transformar políticos em heróis, ainda vamos considerar como apenas mais um escorregão.
O que torna a coisa ainda mais grave é que não existe um único fato que comprove ou que dê um mínimo de sustentação para que haja impeachment. O processo é taxativo em suas formas, descritas todas na nossa Constituição. A presidente, em seus oito meses do atual mandato, não teve comprovado contra si nem o cometimento, nem sequer envolvimento em qualquer tipo de crime, irregularidade ou problema administrativo que possa sequer dar razão a um pedido formal de impeachment no Congresso. A nossa oposição tenta desesperadamente que suas contas sejam reprovadas pelo TCU para terem pelo menos uma argumento para que sustentem a natureza do ato.
Se nada justifica, então não há impeachment. O que temos aqui, claramente, é um golpe. Um golpe formulado por setores que têm interesse em colocar seus representantes e que fizeram uma ótima campanha para convencer pessoas leigas que isso é o desejo geral. E mesmo nossa lei maior sendo clara neste sentido, o povo não tem sequer a vergonha na cara de ler o texto, que não é tão difícil assim, para saberem se o que está sendo pedido tem algum fundamento.
Rasgar nossa carta maior, ainda mais num ponto como estes, é deixar claro ao mundo que não somos respeitáveis nem mesmo nas decisões tomadas pelo próprio povo. Aqui a realidade pode mudar, de acordo com o humor coletivo, diante de qualquer tipo de crise. Ninguém poderá mais confiar neste país, porque aqui nunca mais vai se saber o que pode acontecer diante de um problema. Nem mesmo governantes de direita terão tanta estabilidade assim, nem irão transmitir a confiança necessária para que o país seja levado a sério.
Os resultados desse tipo de ato são claros ao redor do mundo: guerras civis, quebra de relações comerciais, fechada de embaixadas, expulsão de grupos comerciais, perda de muito dinheiro e consequentemente de empregos. A única coisa que se consegue com isso é o caos. Basta olhar o que ocorreu com o Paraguai anos atrás. Ou como estão os países muçulmanos, em suas eternas ditaduras e injustiças sociais. Nenhum país do mundo aceita mais este tipo de situação.
Atualmente, nem mesmo alguns setores da mídia, outrora extremamente conservadores, estão apoiando o golpe. Até mesmo a rede Globo passou a defender o mandato da presidente. E não acreditem que de repente a emissora se converteu ao petismo: ela sabe tanto que o país irá perder uma soma incrível de recursos, terá praticamente o Planeta Terra inteiro contra ela, ao contrário do que ocorria nas épocas da ditadura militar, nos anos 1960 e ainda por cima corre o risco de ver o povo criar pequenas facções e se tornar incontrolável.
Vimos recentemente um grupo sindicalista ameaçar pegar em armas se for preciso apra defender a presidente. Não sei se foi uma figura de linguagem ou não, mas fica claro que a semente do problema está lançada. Não vai demorar até que grupos pró ou contra, num cenário golpista, comecem a agir e tenhamos a volta de atentados e grupos guerrilheiros. Só não vê quem não quer.
Por todas estas razões a situação é bem simples. Conhecimentos básicos da nossa Constituição, aliados a conhecimentos básicos da história do nosso país e do nosso planeta, em termos políticos, podendo apenas ser uma pessoa antenada em noticiários diante da realidade social de diversos países do mundo, e uma pequena, bem simples, análise econômica e social de quadros em que golpes ocorreram demonstram claramente que apoiar um golpe é um erro absurdo e sem sentido. É assumir uma burrice sem igual, como as pessoas que resolvem protestar atenado fogo ao próprio corpo. Só que neste caso é ao próprio corpo e a todos as demais pessoas que esitverem por perto.

Por tudo isso essa situação não pode ter outro nome senão “A revolta dos ruminantes”. E peço perdão a todos os burros, asnos, jumentos e mulas que puderem se ofender ao serem comparados com seres humanos tão irracionais, mas não há como não associar este comportamento tão estúpido.

domingo, 3 de maio de 2015

O ABSURDO ATAQUE AOS PROFESSORES

A última semana de abril de 2015 será marcada eternamente em nosso país como um dos maiores marcos negativos à nossa democracia. Nesta semana, durante a votação de projeto de lei na Assembleia do Paraná, um grupo de manifestantes, formada em sua maioria por professores estaduais, foi atacada por policiais que tentavam isolar o local. Ataque que envolvem disparo de bombas de borracha, spray de pimenta e até mesmo cães. Repórteres e políticos da oposição foram incluídos no ataque.
Não importa se eram professores ou não. Importa que pessoas, por alguma razão, manifestavam-se e protestavam contra atos do governo que não lhe eram favoráveis, protesto este que é assegurado pela nossa lei maior, que no mundo inteiro são o reflexo de uma nação democrática, que respeita o direito a todos em expor suas ideias e opiniões, foi completamente desrespeitado pelo representante maior do Estado, eleito por este mesmo povo.
A repressão contra atos governamentais já é conhecimento público, quando o governo pertence ao PSDB. O partido, que surgiu da esquerda e se bandeou completamente para a ala mais retrógrada da nossa direita, tem em sua bagagem, uma vasta história do uso da força policial para reprimir, muitas vezes com violência, atos que são contrários ao governo. O mais recente havia sido durante as manifestações de 2013, ato que envolvia não só o péssimo Geraldo Alckimin, como o prefeito de São Paulo, que é do PT. O fato ganhou tamanha notoriedade que o país inteiro resolveu aderir, em apoio aos paulistas.
Agora, de forma absurda, inacreditável e injustificável, mais de 100 pessoas ficaram feridas por lutarem por seus direitos. A polícia, a mesma que foi benevolente com os protestos contra a presidente, agiu de  forma assassina, devo dizer, contra quem foi contra o governador. Porém, 17 policiais, que cumpriram o dever a que foram empossados, se recusando a atacar de forma covarde os manifestantes, foram presos. Aquele que cumpre seu dever de forma correta, é punido. Este é o PSDB.
O governador alegou que os policiais foram atacados por black blocks. Em imagens, nenhum foi visto, o que levou o jornalista da Bandeirantes, uma emissora conservadora, a chamar o governador, extremamente conservador, de mentiroso, tamanho o nível do ataque. Vários policiais pintaram seu corpo com tinta, para tentar justificar suas tentativas de homicídio. Algo que chegou a beirar o ridículo, sem qualquer punição por parte dos mesmos líderes que prenderam os que se recusaram a atacar.
Após, pra deixar um pouco mais interessantes os atos do governador, seu pronunciamento foi de que prefere policiais sem estudo, porque são mais fáceis para cumprir ordens. Pra quem entende bem, ele prefere pessoas burras, pois são mais fáceis de mandar.
Um show de horrores que faria inveja a muitos generais da ditadura, tamanha a agressividade da polícia. Alguns feridos em estado grave. Uma desproporção que imaginei não ver em um Estado Democrático de direito. O governador extrapolou em muito seus poderes. O que foi feito foi agressão, ato definido como crime em nosso Código Penal. Mais do que isso: diante da gravidade em que se encontram alguns feridos, houve clara tentativa de homicídio. O governador do Estado do Paraná, Beto Richa, não passa de um criminoso, que num país minimamente decente, estaria neste momento atrás das grades.
Não gosto do PT e discordo muito de muitas ações tomadas em governos do partido. No entanto, uma das coisas que tiro meu chapéu, não só para ele, como para vários partidos de esquerda (ou melhor, pseudo esquerda, pois esquerda no Brasil é uma piada), é o respeito ao processo democrático. Nas manifestações anti-Dilma que tomaram o país não houve qualquer tentativa de intimidação, repressão ou agressão contra quem agiu. Muito pelo contrário: o que foi pregado pelo partido foi o respeito a quem tentava apresentar suas reivindicações, mesmo sendo tais reivindicações a saída da presidente, o que contraria a própria lei.
Num país democrático que quer ser levado a sério no mundo, o direito de manifestação é sagrado. As pessoais devem ter o  direito de manifestarem suas ideias, se expor os pensamentos. Ideias contrapostas devem ser debatidas e utilizadas como forma de aprendizagem. Agredir quem pensa diferente não é apenas anti democrático, é um ato de extrema burrice, pois além da própria intolerância do ato, ainda se perde a oportunidade de aprender algo.

Em outubro de 2014 votei na Dilma no segundo turno. Naquela época, contrariado por ser minha última opção, pensei inclusive na possibilidade de votar nulo, diante do fato de não gostar nem dela nem do Aécio. Hoje, além da comparação obvia nos dois governos, onde o PT sempre leva vantagem nas conquistas e nos resultados, agora fica claro que se a eleição fosse realizada mais 300 vezes, em 300 vezes o voto certo seria na Dilma, pois apesar de não ser uma governante lá muito boa, ainda respeita a democracia, coisa que os tucanos estão longe de fazer.

sábado, 18 de abril de 2015

CONFISSÕES DE UM VICIADO

Não chegamos ainda ao final de abril, e acredito que minha saúde está mais estragada do que a maior parte dos demais anos. E olha que eu tive várias escorregadas nos demais anos.
Pra começar, dores de cabeça diárias, fortíssimas. Acho que criei uma certa imunidade contra Dorflex, Neosaldina e Paracetamol. Uma amiga chega a dizer que sou uma farmácia ambulante. Fora isso, devo ter apresentado quadro de torcicolo umas três ou quatro vezes este ano. E mais remédio. Comecei a receber alguns avisos que a coisa estava muito ruim quando tive refluxo. Eu jamais na minha vida tive qualquer problema de estômago, e de repente estava vomitando e sentido um gosto péssimo.
Mas o ápice até o momento chegou até mim no dia 12 de abril. Surgiu um caroço gigante no meu saco, que estava me causando dores incríveis. Tentei aguentar durante o dia, pois raramente reclamo de dores a ponto de parar de fazer o que preciso. Mas a dor foi mais forte, e terminei a noite no hospital, passando por um clínico e um cirurgião, que constataram se tratar de mais um furúnculo (este foi o de número 15). Tive seis nesta semana, mas todos com dores suaves e suportáveis. Este não.
Passei uma semana terrível. Bem verdade que fiquei em casa, dormi relativamente bem quando a dor permitiu, mas a maior parte do dia foi repleta de dor. Quando essa loucura estourou, sangue pela casa toda, o dia inteiro, misturado a pus. No dia seguinte, quando tinha saído toda a infecção, fiquei com a ferida aberta, e passei mais três dias ardendo até a alma. Sentar somente na ponta da cadeira, e se fosse estofada. Andar até dava, mas com uma dor desgraçada. Passei a maior parte dos dias deitado.
Além do fato de fazer as coisas picadas e com muita dor, acho que pude aproveitar o que restou de lucidez esta semana para refletir sobre a minha vida. É claro que a situação é da minha inteira responsabilidade. Eu passei a vida inteira querendo ser muito bom no que eu faço, me dedicando de corpo e alma a todas as atividades que desempenho.
Acredito piamente que realmente me tornei muito bom mesmo em tudo que faço. Sou muito bom no meu trabalho, tiro excelentes notas na faculdade, e quando não acontece tenho ótimos argumentos para contestar a avaliação sofrida, passei em vários concursos, sendo nomeado em três deles. Em casa não tenho preguiça de fazer nada, sendo que sei limpar uma casa perfeitamente bem, além de ser um excelente cozinheiro (com exceção de doces). Até hoje sempre fui um bom amante. Não me lembro de ter me relacionado com uma mulher uma única vez, pois todas que experimentaram quiseram repetir a dose.
E posso dizer hoje, sem medo de errar, que este foi o pior erro da minha vida. Não porque eu não seja bom, ou que não seja legal pro ego. Mas o corpo não aguenta. Eu me tornei um homem extremamente ansioso e exigente, e meu físico não consegue acompanhar o que minha mente apresenta. E agora começa a definhar. O quadro evoluiu nos últimos anos para uma claustrofobia que me deixa agressivo e uma impossibilidade de ficar parado.
Graças a dor, tive algumas vezes que ficar na frente da televisão, assistindo alguma merda que estava passando. E então me dei conta que há muitos anos não fazia isso. Caralho, eu não tenho tempo ocioso na porra da vida. Isso é ainda mais assustador do que não ter emprego. Eu me dei conta que se as coisas não mudarem, eu vou morrer muito em breve.
O maior problema é que essa merda é um vício. Eu não sei como parar. Há algum tempo faço terapia, mas não tinha me dado conta do nível que a coisa estava. Aceitei que acho que chegou a hora de procurar ajuda psiquiátrica. Não me parece que sozinho eu conseguirei mudar isso a curto prazo.
Depois de uma luta interminável eu consegui, nós conseguimos, melhorar e fazer nosso casamento se tornar algo maravilhoso. E eu ainda não consegui aproveitar isso. Quase não vejo meus grandes amigos, os irmãos que tive em toda a vida. Há quanto tempo que não pego pra desenhar ou pra pintar, que sempre foi uma das paixões da minha vida?
E estes dias, a dor dessa merda de furúnculo que parecia uma pedra enfiada dentro do saco, me fez refletir, que nada, nada, nada é mais importante na minha vida do que minha esposa e meus amigos (e volto a dizer, que aqui temos a família, quando se portam como tal, sendo amigos de verdade). E que está na hora de trata-los como são.

O resto, é somente o resto. Só falta agora eu conseguir isso...

quarta-feira, 15 de abril de 2015

EU SOU DE ESQUERDA

Sim, eu sou de esquerda. Sempre tive muito orgulho deste fato. Agora, depois das bisonhas manifestações anti-PT que ocorreram em março e abril, tenho ainda mais orgulho, e uma profunda felicidade em não fazer parte dessa massa de imbecis que acha que está fazendo algo de bom. Pra começar, pedindo retorno de ditadura militar, passando por mensagens de apoio a Bolsonaro, usando camisetas afirmando estar isento de culpa por votar no podre Aécio Neves, e todo tipo de estupidez que eu jamais imaginei que presenciaria.
E esquerda não significa seguir um partido político, especialmente porque não vejo no Brasil partidos grandes, como é o caso do PT, sendo de esquerda. Também ser de esquerda não tem absolutamente relação a ser comunista, ou desejar que o comunismo seja implantado.
A ideia de esquerda e direita surgiu na Revolução Francesa, com a divisão dos apoiadores do absolutismo, o clero(sempre a religião) e a nobreza sentando-se ao lado direito da Assembleia Nacional, e os que eram contrários, o povo, sentado à esquerda, pleiteando igualdade de direitos, liberdade...
Desde então, a esquerda é utilizada, pra quem conhece o termo, para demonstrar o anseio por justiça social. E quando dizemos isso, não significa que estamos buscando que todos ganhem o mesmo salário e tenham direito aos mesmos bens. Isso é uma propaganda negativa que a mídia passa, e você apenas rumina e devolve em forma de esterco para seus pares. Isso não é esquerda. Esquerda é o direito de todos terem o suficiente para uma vida digna e justa, sem que haja fome, miséria e sem que pessoas sejam subjugadas por ditadores que massacrem pessoas para se manterem no poder.
Esquerda também reflete a ideia da não intervenção da religião no poder. Não significa que não possa haver religião ou que as pessoas, que façam parte do governo, não possam ter religião ou sua fé. Significa apenas que farão isso em sua vida pessoal, sem intervir nas diretrizes governamentais.
Ser de esquerda é respeitar o direito das pessoas de fazerem suas escolhas. Respeitar o casamento gay e o direito das pessoas de se relacionarem com quem quiserem. Respeitar o direito de uma mulher de ter a vida sexual que ela achar melhor, com quem e com quantas pessoas ela quiser. Ser de esquerda é respeitar o direito das pessoas de se manifestarem, de serem críticas o quanto quiserem.
E você poderá trazer os exemplos de Cuba e da China, duas ditaduras, no caso chinês, extremamente violenta e fechada. Como citei, o comunismo não reflete o verdadeiro pensamento de esquerda. Até mesmo países capitalistas, como a Suécia e a Bélgica aplicam a ideia da esquerda muito mais que essas aberrações citadas. Você pode usar o argumento que quiser para tomar o poder e justificar sua concentração nas mãos de poucos, usando isso como desculpa para que as pessoas sejam controladas e impedidas de se manifestar. Isso não é, nunca foi, e nem nunca será qualquer coisa próxima à esquerda.
Isso é o reflexo do puro e trágico pensamento conservador que dominou o mundo por tanto tempo. Um mundo dominado por pensamentos religiosos e pequenos, que tratou a ciência como uma aberração, que subjugou, humilhou e submeteu as mulheres a um papel de animal de estimação, que aumentou a pobreza no mundo, doenças, que criou uma divisão estúpida entre negros e brancos que depois mais de 500 anos não fomos capazes de eliminar. O conservadorismo, refletido pela “direita”, que se diz defensor da família, da moral e dos bons costumes, tem sido responsável por todas as coisas ruins que existem no nosso mundo, mantendo desgraças e assassinatos em nome de tradições e instituições, que são impostas a todos, que as queiram ou não.
Qualquer pessoa que quiser estudar história, qualquer pessoa que queira ler e se informar sobre política, qualquer pessoa que busque se manter atualizado sobre a realidade em que vive, poderá constatar, com extrema facilidade, que o conservadorismo, em toda sua manifestação, é uma desgraça para a raça humana. Nada é mais importante do que a liberdade, pois sem ela, a vida em si, não vale a pena. Liberdade para seguir suas convicções, para seguir seus ideias, sua fé, suas ideias, para se manifestar em qualquer situação, e não impor nada disso a ninguém.
Por isso, mais do que nunca, devo agradecer à Revolta dos Ruminantes que assolaram nosso país, de maneira bem mais fraca da segunda vez, por terem deixado claro o quanto essas pessoas são incrivelmente idiotas e sem conhecimento, e por ter deixado claro que tudo aquilo que seguir e acreditei durante toda a minha vida sempre esteve em total harmonia com o que possa ser bom e justo.
E não importa que partido político pratique, não importa que religião ou não religião que a pregue, não importa que sistema econômico utilize seus métodos. Onde houver atitudes de esquerda, haverá a esperança de um mundo melhor.

Por isso, eu sou de esquerda, e com muito orgulho!

sábado, 25 de outubro de 2014

POR QUE VOTO NA DILMA

No dia 05 de outubro de 2014 meu voto foi em Luciana Genro, do PSOL. Juntamente com Eduardo Jorge, do PV, eram os dois melhores candidatos à presidência, disparados. Findo o primeiro turno, o povo, mais ou menos dentro do esperado, colocou Dilma Roussef e Aécio Neves no segundo turno.
            De lá pra cá ouvi centenas de argumentos sobre o não voto em um ou em outro. Eu mesmo deixei muito clara minha antipatia ao candidato tucano. Aécio Neves é o retrato maior da corrupção, além de tomar medidas ditatoriais em seu Estado e praticar nepotismo descaradamente. No entanto, tanto os argumentos anti-Dilma quanto os anti-Aécio nada mais são do que argumentos para que o eleitor voto nulo.
            Ainda não encontrei um único eleitor de Aécio Neves que consiga justificar o voto neste ser. Ao contrário, algumas vezes, poucas é verdade, já encontrei motivos para votar em Dilma. Ao que me parece, o voto em Aécio é o voto de protesto, por mudança. Mas um protesto meio sem sentido. Seria o mesmo que mudar da favela em Santos para uma favela em São Paulo, porque as condições em Santos não são tão favoráveis. Não da pra entender a razão disso.
            Então, agora tenho plena convicção de que o melhor a se fazer neste momento é o voto na Dilma, assim como o faria em qualquer candidato do PT, frente a algum do PSDB. E a razão para isto é a simples comparação das duas realidades. Pra começar, o governo tucano tem a ideia fixa em controlar a inflação. E pra isso não abre mão de medidas impopulares, como já afirmou o provável ministro de Aécio, Armínio Fraga, como arrocho salarial, diminuição de poder de consumo, aumento da dívida externa, etc. E estas ações não são possíveis invenções: foram tomadas durante o governo FHC.
            Se você acha que não faz diferença entre ter uma grande dívida externa e uma grande dívida interna, basta olhar para os países europeus: a dívida externa de países como Grécia, Irlanda, Portugal, etc. puxou o bloco europeu inteiramente para uma crise incomensurável. Além disso, gerou desemprego em massa nestes países, protestos gerais e mais dívida externa para conseguir recuperar o mercado.
            Se as pessoas não consomem, a indústria e o comércio não crescem. Se não crescem, não geram emprego. E pior: postos são fechados. Daí o índice de desemprego no governo tucano ser tão alto. Ao contrário, a dívida interna pode ser arrolada e renegociada. E possível calote não gera uma imensa reação em cadeia global, levando vários países ao caos. Daí eu dar ponto pro PT em relação ao PSDB.
            Se for analisar o desemprego, o melhor momento do governo FHC o desemprego era de 12%, contra o atual, pior momento do governo PT, é de 4,9%. Precisa dizer quem ganha ponto nesta?
            Na era FHC o país era a 12ª maior economia do mundo, em seu auge. Hoje, no momento de crise, somos a 7ª. Na era FHC a crise internacional levou o país a perder centenas de pontos na confiança internacional, enquanto atualmente, a perda foi bem leve. Naquela época o dolar chegou a valer R$3,95, enquanto atualmente, no momento mais crítico e de recorde histórico do governo petista, está em R$2,51. Com isso já temos 4X0 pro PT.
            Eu não sei deveria comentar as conquistas sociais, porque isso é uma barbada. Tenho sérias críticas ao bolsa família do jeito que está, mas ainda assim é melhor do que nada. Antigamente tínhamos uma imensa debandada do Nordeste, porque não havia meios de sobreviver naquela região. Hoje, ainda com uma grande pobreza, temos o míninmo necessário para que as pessoas vivam com dignidade. Pode não ser perfeito, mas é uma evolução. E isso tem que contar. Tanto que agora o governo paulista lançou o "Bolsa Crack", pra ajudar dependentes químicos, pagando um bom valor pra clínicas de reabilitação. Ação esta que eu fiz questão de elogiar. Se é assim, mais um ponto pro PT. 5X0.
            Corrupção como nunca vimos antes? Como quem nunca viu?  Claro, se você espera que a informação venha até você, você nunca terá visto mesmo, porque as principais fontes de informação sempre quiseram os tucanos no governo. Talvez porque metade do lucro da editora Abril esteja no governo de São Paulo, através da compra de assinaturas da revista Veja, o que justifica tantas capas desesperadas para tentar destruir o PT, assim como do jornal Folha de São Paulo e do jornal O Estado de São Paulo. Então você tem que pesquisar em outras fontes pra lembrar dos problemas tucanos: compra de votos na emenda de reeleição; corrupção nas privatizações de estatais; máfia dos sanguessugas; trensalão em São Paulo; mensalão mineiro... tem tanta merda dos tucanos no país, que deveria escrever um texto só pra isso. Sendo assim, ninguém ganha pontos.
            Controle da inflação? Hum... tenho minhas dúvidas sobre o real controle da inflação ocorrido no governo FHC. As medidas foram tomadas, como citei, baseado em empréstimo internacional, o que é péssimo, assim como aumento da desigualdade social, a maior da história do país, assim como um arrocho salarial muito degradante. O governo do PT aproveitou o plano, corrigiu erros e colocou a coisa no lugar. O que espero de quem entre no governo é aproveitar as benfeitorias do antecessor e melhorá-las. Desta forma, o PT ganha ponto por não zerar o que foi feito anteriormente, mas devo ser justo e dizer que foi dado um ponto de partida que possibilitou a melhoria. Então o PSDB também ganha ponto. Desta forma, 6X1.
            Então, nos pontos principais, o PT ganha de lavada. E pior: depois dos eleitores do Aécio não apresentarem sequer um motivo relevante pra votarmos nele, eu, que sou eleitor da Dilma neste segundo turno, tive que apresentar. Mesmo assim, é muito pouco, em relação aos bons motivos para votarmos na Dilma. Não da pra comparar os governos e ter alguma intenção de votar no Aécio.

            Mas claro, basta apresentar motivos relevantes para votarmos no Aécio (o que não é o mesmo que o não-voto na Dilma, pois isso é votar nulo), que podemos conversar num nível maior.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

A assustadora volta ao conservadorismo

            Em meados do ano passado me sentia muito feliz em ver meu povo, pela primeira vez, saindo às ruas para lutar por algo. Por um pequeno ato dos governos municipal e estadual de São Paulo, as pessoas colocaram nas ruas toda sua revolta. Naquele momento senti esperança que as coisas poderiam melhorar, e que finalmente tínhamos entrado num ótimo caminho. Finalmente estávamos lutando. Pena que se mostrou apenas um sonho.
            Quase um ano e meio depois, o que vemos, especialmente neste ano de 2014, é um regresso dos mais desastrosos na nossa sociedade. O conservadorismo voltou, com uma força avassaladora e assustadora. O país vê, depois das revoluções do mensalão e das manifestações populares, o relógio andar para trás.
            Primeiro, no nosso futebol, começamos a ver tribunais mudarem o resultado dos jogos, favorecendo, com a desculpa de descumprimento administrativo, times  de grande poderia econômico e de grande torcida, como ocorreu com a virada de mesa do Fluminense, prejudicando a Portuguesa. Pouca repercussão teve o episódio, até porque os times de grande torcida não foram grandemente afetados.
            Neste ano, vimos o Tribunal Regional do Trabalho impor medida à greve do metrô determinando que em horário de pico 100% do contingente trabalhasse, e nos demais horários, 70%. Que porra de greve obriga o total de trabalhadores estarem na ativa? E pra piorar a situação, o contorno à situação feito pelo governador foi obrigar a polícia a agir com violência contra os grevistas, além de demitir, de maneira totalmente arbitrária e injustificável, vários dos que participaram da greve, atitude esta que ainda hoje é contestada na justiça.
            Mas a cereja do bolo está vendo neste momento, quando este governador, depois de um péssimo mandato, com crises nunca antes vista na segurança, na saúde e agora uma catástrofe anunciada no abastecimento de água em virtude da má administração, foi reeleito em primeiro turno, com uma maioria esmagadora. Fora que vimos o Congresso mais conservador já eleito desde 1964, o que significa que foi superado vários momentos da ditadura militar, que durou até 1985. A bancada religiosa aumentou significativamente, assim como a péssima bancada ruralista, ao passo que todos aqueles que defendem direitos humanos tiveram sua quota reduzida.
            Além disso, o fato de se propagar ideias, inclusive em jornais, onde pessoas podem fazer justiça com as próprias mãos, agredindo possíveis criminosos, divulgando fotos de possíveis estupradores torturados e mortos sem julgamento, além de centenas de outras barbaries que são totalmente contrárias a um estado democrático e legalista, demonstram que as coisas estão caminhando totalmente na contramão do que deveriam.

            É assustador, como nunca. Vemos direitos humanos, diversidade, conquistas e até mesmo o progresso social totalmente ameaçado. Temos um povo onde a maioria é pobre, ou de gente que, graças a um governo de esquerda, ascendeu a classes maiores, mas muito recentemente. É inconcebível que este povo tenha uma atitude tão conservadora. Nem mesmo países tradicionalistas adotam uma postura dessas. Dá medo até mesmo que essas discussões sobre pontos de vista estejam tão ameaçadas quanto as conquistas que obtivemos.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

SUPERIOR TAPETÃO DE JUSTIÇA DESMORALIZADA



Assisti um pequeno pedaço do julgamento da Portuguesa hoje. Neste pequeno momento, tive ânsia de vômito com o nojo que provoca o procurador geral do STJD, assim como seus auditores. Tudo aquilo que estudamos para o direito é jogado no lixo, como se o tribunal de justiça desportivo fosse uma instituição própria, que não precisasse cumprir a lei que serve para todas as demais áreas da vida.
Vamos pegar o caso do mensalão: ali tivemos uma clara tomada de decisão baseada em valores morais e éticos, quando a lei fosse transposta em muito. Condenou-se pessoas sem provas efetivas, que são expressamente cobradas em nossos códigos. No entanto, considerou-se que os depoimentos e suas posições no partido seriam suficientes para condenar os acusados. O judiciário cada dia mais busca mais do que seguir o texto seco da lei, até porque não é preciso ser um estudioso a respeito para aplicar o que está escrito na lei, e sim ler e aplicar. Qualquer orangotango adestrado é capaz de fazer isso.
Depois, os mesmos mensaleiros só foram presos quando o último recurso foi julgado improcedente, dado o trânsito da decisão. Ninguém cumpre pena imediatamente, se ainda há espaço para recurso. Existem casos de liminar para evitar perecimento de direito, ou sentenças que obriguem seu cumprimento imediato, também para evitar tal perecimento. Este não foi o caso. A única suspensão automática é a de três cartões amarelos ou um vermelho. Decisões do tribunal devem ser publicadas e aguardar seu trânsito. É assim em qualquer instância.
Por fim, nunca se pode descartar a hierarquia das leis. Nada pode ir contra a constituição, que assegura o direito de defesa e o duplo grau de jurisdição, o que não ocorreu neste caso. Da mesma forma, uma lei federal tira a eficácia de outras menores, estaduais, códigos, decretos, etc. Se o Código Desportivo brasileiro é inferior e contraria leis federais, como pode ainda ser utilizado?
Daí vem o procurador geral afirmar que se fosse feita tal revisão várias decisões deveriam ser revistas. Não  posso acreditar que um procurador seja ignorante, o que me faz concluir, ainda mais baseado no histórico deste senhor, que ele é tremendamente mal intencionado. Qualquer ato jurídico perfeito, com trânsito em julgado não será revisto por qualquer nova lei. Se o espaço para o trânsito já foi esgotado, baseado em que deveria ser revista a decisão? Nem mesmo os torneios a ela atrelados estão mais em disputa!
O que tivemos hoje foi uma das mais nojentas e repulsivas demonstrações de corporativismos, onde todos os integrantes daquela instituição apodrecida agiram como um grupo fechado, chegando ao absurdo de o mesmo procurador fazer uma defesa do Fluminense! Na verdade, nem tão absurdo assim, pois o mesmo podre procurador já havia defendido o time do Rio em 2010, quando o mesmo cometeu um erro ainda mais grotesco que a Portuguesa, mas este procuradorzinho de merda resolveu não denunciar o time, porque isso mudaria o resultado em campo.
Baseado no mesmo instituto de decisão do STF no caso do mensalão, sobre a verdade sabida, fica claro que houve um esquema montado para defender o Fluminense. E fica claro que não há qualquer isenção no STJD. Foi desrespeitado nosso judiciário como um todo, foi desrespeitada a moral, a ética, foi desrespeitada a lei maior, da FIFA, o torcedor, que pagou ingresso para assistir tais jogos, ou os que compraram pacotes de TV a cabo, para assistirem jogos que não eram transmitidos. Toda uma nação foi enganada por um punhado de engravatados, que usaram a justiça para interesses particulares, defendendo uma categoria que se mostra podre e falida.
Hoje não foi só o futebol brasileiro que foi envergonhado, considerando-se já que ele está morto e enterrado depois desta vergonha, mas foi também todo o país, toda a justiça que ainda poderíamos acreditar existir. Hoje, como amante do futebol, como estudante de direito, como funcionário do sistema judiciário, e como consumidor de TV a cabo, me sinto infinitamente envergonhado.